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IFRS 18 e o Valuation: O valor não muda, mas o risco de errar na leitura disparou

Por Orivaldo Nardi Primo, contador (CRC/SP 1SP234597/O-4), sócio-fundador da Ethos Valor · Publicado em 28 de agosto de 2026 · Atualizado em 23 de setembro de 2026

Entenda como a nova norma contábil impacta a avaliação de empresas, as métricas gerenciais (MPMs) e o que muda na rotina de analistas e investidores.

Resposta em 30 segundos

A IFRS 18 altera a apresentação do DRE, exigindo atenção dobrada. O valor da empresa não muda, mas a leitura dos indicadores de performance (MPMs) agora exige uma análise mais rigorosa para evitar interpretações equivocadas.

IFRS 18 e o Valuation: o valor não muda, mas o risco de errar na leitura disparou

A contabilidade global passa por sua maior transformação dos últimos anos com a chegada do IFRS 18, norma que substitui o IAS 1 (no Brasil, correlacionada ao processo de atualização dos pronunciamentos do CPC). Diante dessa mudança, surge uma dúvida central no mercado financeiro: qual é o real impacto do IFRS 18 na avaliação de empresas?

A resposta mais direta é: o IFRS 18 não altera o valor intrínseco de nenhum negócio. O fluxo de caixa gerado por uma operação continua sendo o mesmo. No entanto, a nova norma muda drasticamente a forma como os números são organizados, classificados e interpretados. Se a base de leitura muda, o risco de o analista cometer erros graves na projeção de modelos de valuation dispara.

O fim da "narrativa livre" nas demonstrações financeiras

Historicamente, as empresas gozavam de ampla discricionariedade para organizar a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE). Receitas, despesas, juros e efeitos não recorrentes eram alocados de formas distintas a depender do setor ou da conveniência da gestão. Isso criava um desafio crônico para os profissionais de valuation: a falta de comparabilidade direta entre empresas concorrentes.

O IFRS 18 corrige essa distorção ao impor uma estrutura rigidamente padronizada. A partir de agora, a DRE passa a exigir uma separação clara em três categorias principais:

  • Atividades Operacionais: o coração do negócio.
  • Atividades de Investimento: retornos de ativos não operacionais.
  • Atividades de Financiamento: efeitos da estrutura de capital e juros.

Além disso, a introdução de subtotais obrigatórios, como o Lucro Operacional padronizado, reduz significativamente a flexibilidade que as empresas tinham para inflar margens ou mascarar custos operacionais sob linhas não operacionais.

A disciplina das Métricas Gerenciais (MPMs) e o "Novo EBITDA"

Um dos pontos de maior atenção para quem trabalha com modelos financeiros e múltiplos é a regulação das Management Performance Measures (MPMs) — as famosas métricas gerenciais como EBITDA ajustado, lucro recorrente ou resultado normalizado.

As empresas não estão proibidas de divulgar esses indicadores, mas o IFRS 18 introduz uma trava de transparência: qualquer métrica gerencial usada na narrativa da administração precisa ser formalmente reconciliada com os números reportados sob as regras estritas da norma.

Para o ambiente de fusões e aquisições (M&A) e valuation, isso traz um ganho substancial de governança. Um EBITDA ajustado perde sua credibilidade técnica se não passar pelo crivo dessa reconciliação oficial. O espaço para interpretações excessivamente otimistas diminuiu drasticamente.

Os perigos ocultos da transição

Se por um lado o IFRS 18 promete modelos de fluxo de caixa mais consistentes, múltiplos mais confiáveis e testes de impairment mais robustos no longo prazo, o processo de transição esconde armadilhas perigosas que estão sendo subestimadas pelo mercado.

Na prática, a adoção da norma exige a reapresentação de informações comparativas e a revisão completa de séries históricas. Atualmente, os analistas já enfrentam:

  • Quebras de comparabilidade severas entre períodos passados e projeções futuras.
  • Inconsistências na classificação do que a gestão considerava "operacional" versus o padrão rígido da norma.
  • Dificuldades na reconciliação automática de modelos financeiros antigos.
  • Impactos indiretos em testes de impairment (como o CPC 01), afetando diretamente o valor contábil dos ativos.

O erro contemporâneo não está na matemática do modelo de valuation, mas sim na inconsistência conceitual da base de dados utilizada.

O papel do avaliador independente na nova era contábil

Garantir que a informação financeira esteja corretamente interpretada e normalizada de acordo com a realidade econômica do negócio tornou-se um desafio complexo. É nesse cenário que a atuação de um avaliador independente e especializado se torna indispensável.

Mais do que rodar modelos, o especialista atua como o elo técnico entre a contabilidade regulatória e a finança estratégica. Ele é o responsável por reorganizar séries históricas desconfiguradas pela transição, auditar as reconciliações de MPM, identificar distorções operacionais ocultas e assegurar que o fluxo de caixa projetado reflita a real capacidade de geração de riqueza da empresa.

Em processos críticos como PPA e testes de impairment, laudos alinhados ao IFRS 18 reduzem riscos de auditoria e aumentam a credibilidade do ativo.


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Perguntas frequentes

Orivaldo Nardi Primo

Sobre o autor

Orivaldo Nardi Primo

Sócio-fundador da Ethos Valor, contador registrado no CRC/SP sob o nº 1SP234597/O-4. Conduziu mais de 1.000 projetos de avaliação de empresas, laudos societários, PPA, impairment e avaliação de intangíveis. Atua de forma independente, sem vínculo com intermediação de negócios.

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