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Como avaliar ativos e passivos a valor de saída nos haveres

Por Orivaldo Nardi Primo, contador (CRC/SP 1SP234597/O-4), sócio-fundador da Ethos Valor · Publicado em 24 de outubro de 2026

Na apuração de haveres com contrato omisso, cada ativo e passivo vai a preço de saída no balanço de determinação. Veja a regra de cada rubrica e um exemplo em reais.

Resumo rápido

  • Na apuração de haveres com contrato social omisso, o art. 606 do Código de Processo Civil manda avaliar bens e direitos, tangíveis e intangíveis, a preço de saída, em balanço de determinação levantado na data da resolução.
  • Preço de saída é o valor pelo qual cada bem seria vendido na data da resolução, no estado em que se encontra, e não o custo histórico registrado na contabilidade nem o preço de um bem novo.
  • O balanço de determinação refaz cada rubrica do balanço contábil: imóveis e máquinas a valor de mercado, estoque a valor realizável, recebíveis líquidos de perdas, passivos com contingências e com o tributo sobre os ganhos da venda simulada.
  • O fundo de comércio entra no balanço de determinação pelo método do lucro excedente, que capitaliza por prazo limitado o lucro acima da remuneração normal do capital; o fluxo de caixa descontado fica fora quando o contrato é omisso.
  • O perito nomeado pelo juízo monta o balanço de determinação e o assistente técnico de cada parte confere a data, o critério, a origem de cada número e os ajustes omitidos.

O que significa avaliar a preço de saída na apuração de haveres?

Preço de saída, na apuração de haveres, é o valor que cada ativo renderia se fosse vendido na data da resolução da sociedade, no estado em que está, e o valor que cada passivo exigiria para ser quitado na mesma data. O art. 606 do Código de Processo Civil usa essa expressão para o balanço de determinação quando o contrato social é omisso sobre o critério de apuração. O balanço contábil responde a outra pergunta, a do custo histórico, e por isso o perito refaz rubrica por rubrica.

Por que o balanço contábil é o ponto de partida, e não a resposta

O balanço contábil registra o imóvel pelo custo de compra menos depreciação, o estoque pelo custo de aquisição e os recebíveis pelo valor de face. O balanço contábil também deixa de fora a marca, a carteira de clientes e o fundo de comércio, porque o CPC 04 (R1) proíbe reconhecer intangível gerado internamente. O balanço de determinação parte desses saldos e corrige cada um para o valor de saída na data da resolução.

Qual é a lógica por trás do preço de saída

A lógica é a da dissolução total simulada, sistematizada por Martinho Maurício Gomes de Ornellas em Apuração de Haveres de Sócios. O perito pergunta quanto o sócio receberia se a sociedade fosse integralmente liquidada na data da resolução: todos os ativos vendidos, todos os passivos pagos, o saldo dividido na proporção das quotas. O sócio que sai recebe a parte dele nesse saldo. É por isso que o valor de cada ativo é o de venda, e o de cada passivo é o de quitação.

Qual data o perito usa

A data da resolução, fixada pelo art. 605 do Código de Processo Civil conforme a causa: a morte do sócio, o fim do aviso prévio na retirada imotivada, o trânsito em julgado na exclusão judicial. O balanço de determinação é levantado nessa data, e todos os valores de saída se referem a ela. Correção monetária e juros contam a partir dela, pelo índice e pela regra que o contrato ou a decisão judicial fixarem.

Como avaliar cada ativo a valor de saída?

Cada ativo do balanço contábil recebe um tratamento próprio no balanço de determinação, e o perito documenta a origem de cada ajuste. A tabela abaixo resume a regra por rubrica, e as seções seguintes detalham as que geram mais disputa.

Regra de valor de saída por rubrica do ativo

RubricaSaldo contábilValor de saída no balanço de determinaçãoDocumento que sustenta
Caixa e aplicaçõesSaldo bancário e de aplicaçõesSaldo na data da resolução, aplicações pelo valor de resgate líquido de IRExtratos bancários e de aplicações
Contas a receberValor de faceValor de face menos perdas esperadas por faixa de atrasoAging dos recebíveis, histórico de inadimplência
EstoqueCusto de aquisição ou produçãoValor realizável líquido; itens obsoletos, vencidos ou sem giro a zero ou a valor de sucataInventário físico, relatório de giro por item
ImóveisCusto menos depreciaçãoValor de mercado para venda no estadoLaudo de engenharia de avaliações (NBR 14.653)
Máquinas, veículos e equipamentosCusto menos depreciaçãoValor de venda no estado, nunca preço de novoLaudo de engenharia ou cotações de mercado de usados
Participações em outras sociedadesCusto ou equivalência patrimonialBalanço de determinação da investida, na mesma dataDemonstrações da investida
Créditos com sócios (mútuo ativo)Valor de faceValor de face atualizado; se o devedor é o sócio que sai, compensa com os haveresContratos de mútuo, extratos
Intangíveis e fundo de comércioEm geral, zeroFundo de comércio pelo método do lucro excedenteDemonstrações dos últimos exercícios, memória de cálculo do perito

Como tratar o imobilizado: valor de mercado no estado, nunca preço de novo

O imóvel vai ao valor de mercado apurado em laudo de engenharia, conforme a NBR 14.653. Máquinas, veículos e equipamentos vão ao valor de venda no estado em que se encontram. Um erro que aparece nos laudos é usar o custo de reposição a novo: pelo CPC 46, itens B8 e B9, a abordagem de custo mede no máximo o custo de substituir a capacidade de serviço do ativo, ajustado pela deterioração física e pela obsolescência. Uma máquina de dez anos vale o que se paga por ela usada. O preço de tabela do modelo atual fica fora da conta.

Como tratar estoque e recebíveis

O estoque vai ao valor realizável líquido, item a item quando o volume permite, ou por grupo quando o inventário é grande. Itens vencidos, obsoletos ou sem giro há mais de um ciclo operacional vão a zero ou a valor de sucata, com o inventário físico como documento-fonte. As contas a receber vão ao valor de face menos a perda esperada por faixa de atraso, calculada sobre o histórico de inadimplência da própria empresa. O perito confere se há recebíveis já descontados ou antecipados, que saem do ativo porque o caixa já entrou.

Como tratar o crédito que a sociedade tem contra o próprio sócio que sai

O mútuo entre a sociedade e o sócio que sai é ativo da sociedade e passivo do sócio. No balanço de determinação, o crédito entra pelo valor atualizado e, na liquidação dos haveres, é compensado com o que o sócio tem a receber. O mesmo vale para retiradas registradas como adiantamento e nunca liquidadas.

Como avaliar o fundo de comércio no balanço de determinação?

O fundo de comércio entra no balanço de determinação pelo método do lucro excedente, que atribui ao intangível a parcela do lucro que excede a remuneração normal do capital tangível investido, capitalizada por prazo limitado e a valor presente. A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça, no REsp 2.223.719/SP, julgado em 2 de setembro de 2025, fixou que, omisso o contrato, a apuração se faz exclusivamente pelo balanço de determinação, sem fluxo de caixa descontado. O fundo de comércio que entra é o já formado na data da resolução, não a expectativa de lucro futuro.

Quais são os três passos do lucro excedente

O primeiro passo é apurar o patrimônio líquido ajustado tangível, que é o resultado de todos os ajustes de ativo e passivo a valor de saída. O segundo é calcular a remuneração normal desse capital, aplicando uma taxa que o laudo fundamenta. O terceiro é comparar com o lucro líquido normalizado dos últimos exercícios, depois de levar pró-labore e aluguel ao sócio a valor de mercado: o que excede a remuneração do capital é o lucro atribuível ao intangível, e esse excedente é capitalizado por um prazo limitado, a valor presente.

Por que o fluxo de caixa descontado fica fora

O fluxo de caixa descontado projeta o resultado de anos que o sócio retirante não vai ajudar a produzir e traz esse resultado a valor presente. Esse é o valor da empresa em marcha para quem fica, e não o valor patrimonial de saída que o art. 606 manda apurar. O método do lucro excedente mede só o intangível já construído, por um prazo que reflete a duração esperada da vantagem, e por isso é compatível com a lógica da dissolução simulada.

Dois erros que aparecem nos laudos

O primeiro erro é calcular o fundo de comércio pela diferença entre o valor da empresa por fluxo de caixa descontado ou por múltiplo e o patrimônio líquido ajustado. Esse caminho traz de volta o método que o STJ afastou. O segundo erro é aplicar desconto por falta de controle na quota do minoritário. O art. 606 avalia a sociedade inteira e divide pelas quotas; o desconto fica fora dos haveres.

Como avaliar cada passivo a valor de saída?

Cada passivo entra no balanço de determinação pelo valor que seria preciso pagar para quitá-lo na data da resolução, inclusive os passivos que a contabilidade não registra: contingências com perda provável e os tributos que a venda simulada dos ativos geraria. A dissolução total simulada paga tudo antes de dividir o saldo, e o balanço de determinação precisa refletir isso.

Regra de valor de saída por rubrica do passivo

RubricaSaldo contábilValor de saída no balanço de determinaçãoDocumento que sustenta
Fornecedores e contas a pagarValor de faceValor de face, com juros e multa de títulos em atrasoRazão de fornecedores, boletos
Empréstimos e financiamentosSaldo devedor contábilSaldo devedor na data, com encargos de liquidação antecipada quando houverContratos e extratos bancários
Tributos a pagar e parcelamentosSaldo contábilSaldo consolidado na data, com juros e multaCertidões, extratos de parcelamento
Obrigações trabalhistasProvisões de férias e 13ºProvisões conferidas; rescisões não entram, porque a sociedade continuaFolha, relatório de provisões
ContingênciasEm geral, só as provisionadasPerda provável pelo valor estimado; perda possível descrita no laudo, sem valor ou em notaRelatório dos advogados por processo
Tributo sobre ganho da venda simuladaZeroIRPJ e CSLL sobre o ganho de capital dos ativos reavaliados acima do custoMemória de cálculo do perito
Dividendos declarados e não pagosSaldo contábilValor devido a cada sócio, inclusive ao que saiAtas e razão de dividendos

Por que o tributo sobre o ganho de capital entra no passivo

Se o imóvel contabilizado por R$ 1.200.000 vale R$ 2.000.000, a dissolução simulada o vende por R$ 2.000.000 e paga IRPJ e CSLL sobre o ganho de R$ 800.000. A 34%, no lucro real, o tributo é de R$ 272.000. Esse valor sai do caixa antes da divisão, e por isso entra no passivo do balanço de determinação. Laudo que reavalia o imóvel e esquece o tributo paga ao sócio que sai uma parte de um ganho que a sociedade nunca vai receber líquido.

Como tratar contingências

Contingência com perda provável entra no passivo pelo valor estimado, com o relatório dos advogados como documento-fonte. Contingência com perda possível é descrita no laudo, para que o juiz e as partes conheçam o risco, e fica fora do valor ou em nota, conforme o critério que o laudo declarar. O perito confere também os passivos que só aparecem depois da data da resolução, mas que se referem a fatos anteriores a ela, como autos de infração sobre exercícios já encerrados.

Como fica o exemplo em reais?

As premissas abaixo foram construídas para mostrar a conta, e não refletem médias de mercado. A sociedade tem dois sócios, o retirante com 25% das quotas, o contrato é omisso, e a empresa é do lucro real. Na data da resolução, o patrimônio líquido contábil é de R$ 3.000.000.

Os ajustes de ativo e passivo

O imóvel está contabilizado por R$ 1.200.000 e vale R$ 2.000.000 pelo laudo de engenharia: ajuste de mais R$ 800.000. As máquinas estão por R$ 400.000 e valem R$ 250.000 para venda no estado: ajuste de menos R$ 150.000. O estoque tem R$ 120.000 de itens sem giro: ajuste de menos R$ 120.000. As contas a receber têm R$ 80.000 de perda esperada sem provisão: ajuste de menos R$ 80.000. Há uma contingência tributária com perda provável de R$ 200.000 fora do balanço: ajuste de menos R$ 200.000. E o tributo sobre o ganho do imóvel, a 34% de R$ 800.000, é de R$ 272.000: ajuste de menos R$ 272.000.

Patrimônio líquido ajustado tangível: R$ 3.000.000 + R$ 800.000 − R$ 150.000 − R$ 120.000 − R$ 80.000 − R$ 200.000 − R$ 272.000 = R$ 2.978.000.

Repare que o patrimônio tangível ajustado ficou abaixo do contábil, apesar da valorização do imóvel. Os ajustes negativos, somados, superaram o positivo. Esse resultado aparece em empresa com máquinas antigas, estoque parado e contingências sem provisão, e mostra por que a conta precisa ser completa.

O fundo de comércio

O lucro líquido normalizado dos últimos exercícios é de R$ 750.000 por ano. A remuneração normal do capital tangível, à taxa de 12% ao ano adotada no exemplo, é de R$ 357.360. O lucro excedente é de R$ 392.640 por ano. Capitalizado por três anos a 18% ao ano, com fator de valor presente de 2,1743, o fundo de comércio é de cerca de R$ 853.700. O prazo e as duas taxas são premissas do exemplo, e o laudo real fundamenta cada uma.

O resultado

Patrimônio de determinação: R$ 2.978.000 + R$ 853.700 = cerca de R$ 3.831.700. Haveres do sócio retirante, 25%: cerca de R$ 957.900.

A mesma sociedade, três resultados

CritérioBase de cálculoHaveres (25%)
Patrimônio líquido contábilR$ 3.000.000R$ 750.000
Balanço de determinação sem fundo de comércioR$ 2.978.000R$ 744.500
Balanço de determinação completo (art. 606 do CPC)cerca de R$ 3.831.700cerca de R$ 957.900

A segunda linha é menor que a primeira: os ajustes tangíveis, somados, reduziram o patrimônio. A terceira linha é 28% maior que a primeira, e toda a diferença vem do fundo de comércio. Em outras palavras, nesse exemplo, quem calcula os haveres pelo PL contábil erra pouco no tangível e erra muito no intangível.

O que o perito e o assistente técnico conferem antes de fechar o laudo?

O perito nomeado pelo juízo monta o balanço de determinação, e o assistente técnico de cada parte o testa. Os dois trabalham com a mesma lista de verificação, que vale também para o contador da empresa que prepara a documentação. Um balanço de determinação completo leva, na Ethos Valor, cerca de 40 dias a partir do recebimento da documentação completa, e a maior parte desse prazo é consumida pela coleta e conferência dos documentos listados abaixo.

Checklist do balanço de determinação

  1. A data da resolução está fixada conforme o art. 605 do CPC e a causa da saída, e todos os valores se referem a ela.
  2. O contrato social e suas alterações foram lidos, e a ausência de cláusula de apuração de haveres está documentada antes de aplicar o art. 606.
  3. O balanço contábil na data da resolução está fechado, conciliado e assinado.
  4. Cada imóvel tem laudo de engenharia a valor de mercado, e cada máquina relevante tem laudo ou cotação de usado.
  5. O estoque passou por inventário físico, com relatório de giro e baixa dos itens sem valor de realização.
  6. As contas a receber têm aging e perda esperada calculada sobre o histórico da empresa; recebíveis descontados ou antecipados saíram do ativo.
  7. Os mútuos entre sociedade e sócio que sai estão atualizados e compensados na liquidação.
  8. Os advogados entregaram relação de processos com classificação de risco, e as perdas prováveis entraram no passivo.
  9. O IRPJ e a CSLL sobre o ganho de capital dos ativos reavaliados entraram no passivo.
  10. O fundo de comércio foi calculado pelo lucro excedente, com lucro normalizado, taxa de remuneração do capital, prazo e taxa de desconto fundamentados.
  11. Nenhum desconto por falta de controle foi aplicado à quota do retirante.
  12. Cada número do laudo está ligado a um documento-fonte, e a memória de cálculo permite refazer a conta.

Para o contador da empresa, os itens 3 a 8 são o trabalho de preparação. Quem entrega esses documentos prontos encurta a perícia e reduz a margem para o número sair errado para qualquer um dos lados.

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Fontes

Orivaldo Nardi Primo é contador, CRC/SP 1SP234597/O-4, atua em avaliação de empresas há mais de 17 anos e em apuração de haveres como perito do juízo e assistente técnico das partes, e responde pela Ethos Valor, ethosvalor.com.br, em Ribeirão Preto, SP.

Perguntas frequentes

Orivaldo Nardi Primo

Sobre o autor

Orivaldo Nardi Primo

Sócio-fundador da Ethos Valor, contador registrado no CRC/SP sob o nº 1SP234597/O-4. Conduziu mais de 1.000 projetos de avaliação de empresas, laudos societários, PPA, impairment e avaliação de intangíveis. Atua de forma independente, sem vínculo com intermediação de negócios.

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